O primeiro amor tem sempre um problema. Nunca sabemos por
tudo no seu lugar, acabamos por dar um balanço muito errado às coisas.
Afastamo-nos dos amigos, discutimos com os pais, falhamos as tarefas,
esquecemos aniversários, ignoramos mensagens de amigos chegados, pelo simples
facto de estarmos tão agarrados ao amor, damos tudo por ter uma vida em
conjunto com alguém que acabamos por esquecer a nossa. É mais ou menos isso que
tem acontecido. O Gabriel deixou de conquistar raparigas, sentia-se culpado
quando piscava o olho a uma qualquer, a Carlota deixou de entrar em apostas,
achava que não era justo ir para a cama com quem não amava, embora se tentassem
redimir dos pecados que cometeram a vida inteira não podiam estar mais longe de
sequer sonharem como seria descobrirem quem estava do outro lado. Gabriel
começou por apagar todos os contactos de “diversão” que tinha no telemóvel,
Carlota finalmente ouviu Alexandra e deixou de brincar com os sentimentos das
pessoas, Gabriel dedicou-se à pintura, Carlota tornou-se artista de aerossol de
rua. Apesar de ser o primeiro amor real de ambos, no seu tempo conseguiram
redimir-se e tornarem-se melhores pessoas.
Mas o que aconteceria a este balanço se eles se conhecessem?
Valeria a pena estarem a limpar os seus cadastros por alguém que na realidade
odiavam? Ou será que amavam em segredo e tinham demasiado orgulho para admitir,
por medo do que os outros iam pensar? A química de um romance é apenas
conhecida aos que este envolve, para os outros todas as conclusões a tirar não
serão mais do que meros palpites e suposições, simples e banais tiros no escuro.
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