Tlim! Tlim! Tlim! Diogo batia com a colher no corpo, tentando juntar a atenção de todos os presentes. Filipa, que tinha estado a observar, num momento de impulso decide aproximar-se, escondendo-se atrás de uma árvore, onde ninguém a podia ouvir.
- Oh Diogo, não precisas – Disse Raquel, com a sua voz
carrancuda de sempre
- Caros convidados, queria aqui dizer algumas palavras –
Disse Diogo, falando como um político, de peito inchado
- Conheci-a no supermercado, fiz um comentário sobre o preço
do peixe ao que ela concordou, e não sei como combinamos um café para o dia
seguinte – Disse Diogo, olhando Raquel nos olhos
- Eu lembro-me desse dia – Disse Filipa para si mesma,
tapando a boca de surpresa
- Depois desse café veio a saída à noite, onde enquanto
dançamos, trocamos o primeiro beijo – Acrescentou, sorridente
- Disseste que tinhas feito horas extra no trabalho… Só
sorrias assim para mim… - Filipa chorava silenciosamente, soluçava a cada
lágrima que lhe escorria do rosto
- Começamos a namorar a 14 de Setembro do ano passado, foram
os melhores meses da minha vida – Sorriu, de orelha a orelha
- Nesse tempo eu tive os teus filhos e matei-me a trabalhar
para os criar! – Disse Filipa, gritando baixinho, com medo que a ouvissem
Marco sentiu a falta de Filipa e foi ter com ela.
- Anda, não precisas de ouvir isto – Disse Marco a Filipa,
levando-a às traseiras da cozinha
Filipa ainda se ressentia com as palavras de Diogo, embora
sentisse algo por Marco.
- Olha-me nos olhos – Pediu Marco, Filipa não conseguia
olhá-lo
- Olha para mim – Pediu Marco gentilmente, Filipa fez um
esforço e manteve o seu olhar no dele
- Antes de vires este canalha no seu casamento não eramos
felizes? – Perguntou Marco
- Sim – Soluçou Filipa
- Quem é que queres neste momento? – Perguntou Marco
- Tu – Respondeu Filipa, o seu olhar tornou-se mais nítido e
as lágrimas pararam, o seu tom de voz era agora menos choroso
- Eu amo-te, tu amas-me, queres mais? – Disse Marco,
olhando-a seriamente
O olhar de Filipa endureceu, pegou Marco pelo avental e
beijou-o furiosamente. As mãos de Marco percorriam as suas curvas e
amplificavam o magnetismo dos seus corpos. Fogo ardia nos corações dos dois
jovens cozinheiros. A carne de ambos cozia no lume da paixão que nutriam um
pelo outro. Mas teria de se recompor.
- Serei tua esta noite – Provocou Filipa, piscando-lhe o
olho
- Oh! Acabou o intervalo – Brincou Filipa, mirando o
relógio, voltando assim para dentro da cozinha, para terminar as sobremesas
para o corte do bolo
Filipa não sabia como se sentia, mas uma coisa era certa,
embora não soubesse a natureza do amor que sentia por Marco, ela queria
atirar-se de cabeça e arriscar, viver a adrenalina que nunca teve com Diogo. E
dentro daquela cozinha entrou uma Filipa nova, e um Marco mais confiante.
Palavras não chegaram para descrever como foi acabar as
sobremesas antes de soar a campainha. O campo de batalha culinária agora
parecia um cenário pós-guerra, paz, loiça suja e nuvens de vapor de água
subiam, espalhando humidade pelo tecto.
No final, não houve aplausos, não houveram pessoas a dizerem
que adoraram a comida, não houve ninguém a querer dirigir-se ao chef. O
nervosismo pelo ruído de facas a cortar e pás a baterem nas panelas era agora o
nervosismo do silêncio no qual os convidados deixaram o espaço. No fundo,
estava Raquel a assinar um papel, o qual entregara a Marco. Um nove e cinco
zeros redondos. Marco não acreditava no que tinha nas mãos.
- Bom trabalho, saíram-se melhor que esperava – Disse Raquel
Um cheque de 90000€ e um elogio de Raquel, Marco estava
agora nas nuvens e sorria e pulava que nem um tonto…
- Esse teu corpinho – Disse Diogo enquanto encurralava
Filipa num canto da cozinha
- Sabes, tive saudades do teu calor – Confessou Diogo,
sorrindo psicoticamente, Filipa não conseguia dizer nada, de choque
Em pânico, Filipa agarrou numa faca de cortar carne e
apontou a ele
- Vais matar-me? Imbecil, perderias o rico dinheiro que a
minha mulher investiu no vosso cafezinho ridículo – Riu-se Diogo
- Vai-te embora, eu amo o Marco agora – Assim que disse isto
Marco entrou na cozinha, mas Filipa manteve-se calma
- Não é permitido convidados dentro da cozinha – Marco era
um pouco mais forte que Diogo, e puxando-o pela gravata pôs-lo fora da cozinha
Palavras teriam quebrado o belo silêncio que uniu Marco e
Filipa num beijo de verdadeiro amor!
O “Pegadas nas Nuvens” era agora um restaurante espalhado
por todo o país, em Lisboa, Porto, Leiria, Évora e Algarve, inclusive em
Espanha, apenas ainda em Vigo e em Tuy. Mas o império encontra-se ainda em
expansão. Marco e Filipa casaram-se e passaram a Lua-de-mel em Veneza! Saíram
de lá com tantas receitas quanto couberam na mala!
- Lar doce lar! – Disse Marco, feliz, entrando em casa, com
Martinha pelas mãos
- Amor – Filipa chamou Marco
- Tenho uma novidade para te dar – Disse Filipa
- O que é? – Perguntou Marco, pegando Martinha ao colo
Filipa puxou a mão de Marco para a sua barriga, Marco sorriu
surpreendido, pousou Martinha e abraçou Filipa. Salvador e Martinha abraçaram
os seus pais.
- Batata! – Disse Salvador, muito contente
* Fim
Sem comentários:
Enviar um comentário