quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Pegadas Nas Nuvens - Parte IX



Música tocava lá fora. Ouviam-se pessoas a falar, o som escalava e era como se um míssil fala-barato estivesse mesmo a ponto de colidir com as paredes da cozinha onde estava o exército de Marco e Filipa.

- Estou tão nervoso – Desabafou um dos cozinheiros que preparava as entradas com mãos trémulas
- Nada vai correr mal! Acho eu… - Assegurou inseguramente outro dos cozinheiros
Marco estava concentradíssimo, cortando legumes, vigiando a carne na grelha e mexendo o arroz na grande panela, parecia desligado da realidade. Já Marta estava a ter um mau bocado a cozinhar, não conseguia concentrar-se… Todos os outros cozinheiros estavam concentrados, apesar de às vezes um ou outro parar para respirar ou suspirar.
- Os convidados estão a chegar – Disse Miguel a Filipa, que estava imensamente nervosa
E assim entraram as pessoas. Três cinquentões, duas moças jovens, uma adolescente com um menino a dar-lhe a mão, vários casais e uma cara conhecida…
- Não pode ser! Não pode ser! – Repetiu Filipa, incrédula, com os seus botões
Diogo pareceu ouvir Filipa e aproximou-se dela lentamente
- É o Diogo! Vestido de noivo! – Continuou
Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Marco limitou-se a segurá-la nos seus braços enquanto Filipa observava Diogo a sentar-se à mesa com Raquel vestida de noiva pelo vidro circular da porta da cozinha.
- Estamos juntos nisto – Disse Marco, puxando-a suavemente pelo braço
- Mas o Diogo… - Disse Filipa
- Não interessa! Não estás bem comigo? – Perguntou Marco, entristecido
- Desculpa Marco… Não queria que te sentisses assim – Filipa abraçou-se a Marco
Movida por raiva do passado, Filipa conseguia agora concentrar-se. Os pratos de almoço estavam prontos e foram servidos. Aproveitando o tempo, Marco dispensou para um descanso de 10 minutos metade da equipa e no fim repetiu o processo com a outra metade, deixando a equipa um pouco mais vitalizada. Filipa estava no exterior, sugando a essência de um cigarro, que segurava com os seus dedos finos e nervosos. Marco aproximou-se dela, pressentindo a sua presença, Filipa deixou cair a beata e apagou-a apressadamente.
- Nervosa? – Perguntou Marco, que se encostou ao seu lado, com as mãos nos bolsos e um pé apoiado na parede
Filipa não respondeu, limitou-se a olhar os carros no parque de estacionamento, como que tentando encontrar algo para não ter de olhar para Marco. Sentia-se culpada, por o que sentira quando viu Diogo. Sentia-se suja por ter usado Marco para esquecer Diogo. Duvidava agora do que sentia por ele, se a atração era apenas fruto de solidão prolongada, se precisava apenas de sentir-se amada… Ou seria algo mais? Filipa sentia-se confusa e, perdida em pensamentos não dizia uma única palavra. Tanto corria na sua cabeça, no entanto nem uma única palavra os seus lábios conseguiam projetar.
- Eu percebo que me tenha adiantado no que diz respeito a nós os dois – Disse Marco, olhando o céu
- Mas não conseguia resistir, tinha que te beijar, não conseguiria aguentar mais as noites sem dormir – Filipa ouvia Marco com extrema atenção, observando a sua figura, de avental
- Quando te via, equilibrada na ponte, sabia que te tinha de salvar, que serias alguém por quem me apaixonaria a sério – Desabafou Marco
- Aceitei-te exactamente como eras… Por isso se não me amares, eu compreendo… Agora por favor… A nossa equipa precisa de nós, pelo bem da cozinha, vamos levar isto ao fim – Continuou
Marco desencostou o seu pé, olhou Filipa, que mantinha o olhar distante, e depois de um curto suspiro entrou para a cozinha
A sensação era-lhe familiar. Observando a paisagem, Filipa por momentos lembrou-se daquele pequeno instante em que a resposta estava diante dos seus olhos. Lembrou-me de como tudo parecia calmo e de como ela se sentia confiante de que fazia a coisa certa. Uma coisa ela tinha a certeza, o Diogo nunca mais faria parte da sua vida, quer por vontade dele, quer por vontade dela. Mas não conseguia ter a certeza do que sentia por Marco. Voltou para dentro cheia de dúvidas, mas com a mente mais fresca.
Já tardava, era fim da tarde e os cozinheiros estavam quase todos em ponto de ruptura, um inclusive não aguentou e foi para casa, estava pálido de tanto esforço.
A cabeça doía a Filipa, das lágrimas que verteu durante o dia todo… Marco mantinha-se firme, mas os seus olhos cresciam mais e mais sensíveis, mas não queria chorar, não queria mostrar o lado dele que só ele e a sua almofada conheciam.
- Não fique triste chefe – Disse uma das cozinheiras
- Ela ama-o, vê-se no olhar – Acrescentou
Marco não sabia o que dizer.
- Obrigado – Agradeceu Marco, pousando a sua mão sobre o ombro da cozinheira
Marco percebeu naquele momento que a sua vida amorosa teria de esperar, pois o trabalho está à sua frente. E começou, a sinfonia de cortes, o compasso de mexedelas, o olhar afiado de Marco mexia-se vigorosamente, ignorando o cansaço. Quem o visse naquele momento conseguiria acreditar que ele seria de capaz de fazer a ementa toda, sozinho.
A campainha soa. Os jantares estão prontos! E mesmo a tempo de serem servidos!
Filipa limpa as mãos à toalha, contente, ainda não ciente do que lhe espera…

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