Música tocava lá fora. Ouviam-se pessoas a falar, o som
escalava e era como se um míssil fala-barato estivesse mesmo a ponto de colidir
com as paredes da cozinha onde estava o exército de Marco e Filipa.
- Estou tão nervoso – Desabafou um dos cozinheiros que
preparava as entradas com mãos trémulas
- Nada vai correr mal! Acho eu… - Assegurou inseguramente
outro dos cozinheiros
Marco estava concentradíssimo, cortando legumes, vigiando a
carne na grelha e mexendo o arroz na grande panela, parecia desligado da
realidade. Já Marta estava a ter um mau bocado a cozinhar, não conseguia
concentrar-se… Todos os outros cozinheiros estavam concentrados, apesar de às
vezes um ou outro parar para respirar ou suspirar.
- Os convidados estão a chegar – Disse Miguel a Filipa, que
estava imensamente nervosa
E assim entraram as pessoas. Três cinquentões, duas moças
jovens, uma adolescente com um menino a dar-lhe a mão, vários casais e uma cara
conhecida…
- Não pode ser! Não pode ser! – Repetiu Filipa, incrédula,
com os seus botões
Diogo pareceu ouvir Filipa e aproximou-se dela lentamente
- É o Diogo! Vestido de noivo! – Continuou
Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Marco limitou-se a
segurá-la nos seus braços enquanto Filipa observava Diogo a sentar-se à mesa
com Raquel vestida de noiva pelo vidro circular da porta da cozinha.
- Estamos juntos nisto – Disse Marco, puxando-a suavemente
pelo braço
- Mas o Diogo… - Disse Filipa
- Não interessa! Não estás bem comigo? – Perguntou Marco,
entristecido
- Desculpa Marco… Não queria que te sentisses assim – Filipa
abraçou-se a Marco
Movida por raiva do passado, Filipa conseguia agora
concentrar-se. Os pratos de almoço estavam prontos e foram servidos.
Aproveitando o tempo, Marco dispensou para um descanso de 10 minutos metade da
equipa e no fim repetiu o processo com a outra metade, deixando a equipa um
pouco mais vitalizada. Filipa estava no exterior, sugando a essência de um
cigarro, que segurava com os seus dedos finos e nervosos. Marco aproximou-se
dela, pressentindo a sua presença, Filipa deixou cair a beata e apagou-a
apressadamente.
- Nervosa? – Perguntou Marco, que se encostou ao seu lado,
com as mãos nos bolsos e um pé apoiado na parede
Filipa não respondeu, limitou-se a olhar os carros no parque
de estacionamento, como que tentando encontrar algo para não ter de olhar para
Marco. Sentia-se culpada, por o que sentira quando viu Diogo. Sentia-se suja
por ter usado Marco para esquecer Diogo. Duvidava agora do que sentia por ele,
se a atração era apenas fruto de solidão prolongada, se precisava apenas de
sentir-se amada… Ou seria algo mais? Filipa sentia-se confusa e, perdida em
pensamentos não dizia uma única palavra. Tanto corria na sua cabeça, no entanto
nem uma única palavra os seus lábios conseguiam projetar.
- Eu percebo que me tenha adiantado no que diz respeito a
nós os dois – Disse Marco, olhando o céu
- Mas não conseguia resistir, tinha que te beijar, não conseguiria
aguentar mais as noites sem dormir – Filipa ouvia Marco com extrema atenção,
observando a sua figura, de avental
- Quando te via, equilibrada na ponte, sabia que te tinha de
salvar, que serias alguém por quem me apaixonaria a sério – Desabafou Marco
- Aceitei-te exactamente como eras… Por isso se não me
amares, eu compreendo… Agora por favor… A nossa equipa precisa de nós, pelo bem
da cozinha, vamos levar isto ao fim – Continuou
Marco desencostou o seu pé, olhou Filipa, que mantinha o
olhar distante, e depois de um curto suspiro entrou para a cozinha
A sensação era-lhe familiar. Observando a paisagem, Filipa
por momentos lembrou-se daquele pequeno instante em que a resposta estava
diante dos seus olhos. Lembrou-me de como tudo parecia calmo e de como ela se
sentia confiante de que fazia a coisa certa. Uma coisa ela tinha a certeza, o
Diogo nunca mais faria parte da sua vida, quer por vontade dele, quer por
vontade dela. Mas não conseguia ter a certeza do que sentia por Marco. Voltou
para dentro cheia de dúvidas, mas com a mente mais fresca.
Já tardava, era fim da tarde e os cozinheiros estavam quase
todos em ponto de ruptura, um inclusive não aguentou e foi para casa, estava
pálido de tanto esforço.
A cabeça doía a Filipa, das lágrimas que verteu durante o
dia todo… Marco mantinha-se firme, mas os seus olhos cresciam mais e mais
sensíveis, mas não queria chorar, não queria mostrar o lado dele que só ele e a
sua almofada conheciam.
- Não fique triste chefe – Disse uma das cozinheiras
- Ela ama-o, vê-se no olhar – Acrescentou
Marco não sabia o que dizer.
- Obrigado – Agradeceu Marco, pousando a sua mão sobre o
ombro da cozinheira
Marco percebeu naquele momento que a sua vida amorosa teria
de esperar, pois o trabalho está à sua frente. E começou, a sinfonia de cortes,
o compasso de mexedelas, o olhar afiado de Marco mexia-se vigorosamente,
ignorando o cansaço. Quem o visse naquele momento conseguiria acreditar que ele
seria de capaz de fazer a ementa toda, sozinho.
A campainha soa. Os jantares estão prontos! E mesmo a tempo
de serem servidos!
Filipa limpa as mãos à toalha, contente, ainda não ciente do
que lhe espera…
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