Rita. Não eram os meus pais, não eram os tios ou avós, não eram os primos, era ela. Quando sofria, quando chorava, estava nos braços dela, não nos braços de mais ninguem… Era ela. E sempre foi ela, a minha casa. E como um demolidor empunhando uma marreta, eu destrui-a, matei-a, fiz-la voar, provavelmente vários quilometros, projectada, para aterrar se calhar no oceano e morrer lá afogada…ou aterrar em cimento sólido, desfazendo o seu corpo… O peso da culpa tem apagado as minhas chamas…Mas tenho conseguido manter o Arza em controlo, porque apesar disto ganhei o controlo e é ele o passivo agora, observando-me como um professor corrigindo os seus testes, isto é, não me observando de todo.
- Ouvi o seu chamamento da salvação – Disse Nerina,
acompanhada por Rafael e Miguel, ela esticou braços, impedindo ambos de
lançarem-se para mim
- Eu quero salvar a minha irmã, se a salvarem, eu saio deste
corpo, matem-me que eu deixo, mas por favor salvem-na – Supliquei
Nerina abanou a cabeça em sinal negativo, baixando-a
Caí nos meus joelhos, apoiei as mãos na cabeça, activei o
poder, os olhos arrepiantes virarão um amarelo repleto de raiva. Estava pronto
para explodir os meus miolos quando…
- Guilherme? – Ele ouviu uma voz familiar
Era Celestia, mas o seu rosto tinha mudado. O seu sorriso
tonto era familiar, as maças do rosto eram conhecidas, mas pareciam mais
pálidas ao que eu me recordava, já o cabelo, era exactamente como ele se
lembrava.
- Rita! – Abracei-a
Apesar do meu corpo queimar-se tocando-a, continuei a
abraçá-la. Rita havia morrido e reencarnado como Celestia, a Agente da Mudança.
Rafael dá um passo na minha direcção
- O teu julgamento terá lugar no céu – Disse Rafael, com uma
voz cansada, de quem já viveu demais
A mão áspera de Miguel agarra-me firmemente o ombro,
levantando-me e a sua espada trespassa-me o ventre, mas não dói, não sinto dor,
apenas alivio, apenas calma e leveza… É como se fosse este o final que queria
para tudo. Foi um final feliz.
…
Um pequeno pedaço de papel cai dos céus, no meio do céu
calmo depois da tempestade, ambientado pelo constante som de ambulâncias e
sirene de bombeiros. Este cai aos pés duma criança.
“Se estão a ler esta carta é porque consegui, libertei-me e
a profecia concretizou-se. Não tinha esperança de o conseguir mas as coisas
acabaram em bem, pelo menos para mim.
Sinceramente, Guilherme Matias da Ribeira Soldado.”
A criança sorriu e correu, por entre vitimas, e médicos,
enfermeiros, bombeiros e vitimas, e ela nunca parou.
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