terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O ódio de amar - Parte IV


Estavam todos no baile de máscaras, era difícil ver todas as pessoas pois apenas as luzes coloridas iluminavam a festa, temperadas por música electrónica pesada.

Adolescentes consumidos pelas hormonas e pelo álcool, beijavam-se, dançavam, contavam piadas, a festa não podia estar mais animada.
Gabriel entrou na festa, vestido de nobre mascarado. Calças enrugadas nos joelhos, meias cobrindo o que restara da perna, sapatos de vela, casaco artesanal, peruca branca, mascara branca com pormenores dourados. Trazia duas jovens pelas mãos, uma gata disfarçada e a outra vestida de capuchinho vermelho. Os seus planos eram aproveitar-se das duas e esquece-las por completo. Pensamentos perversos alimentavam aquele incessante sorriso de gozo. Mas Gabriel não esperava o que estava prestes a acontecer…
- Ei ó Gabriel, olha aquela prisioneira zombie ali, aquela de saia – Disse Nuno, enquanto bebericava o seu blue corazon
Gabriel olhou, mas não encontrou palavras para comentar a situação.
- Aposto 30 em como não consegues o número dela – Comentou Nuno
- Faz 60 e temos negócio – Disse Gabriel, voltando a enfeitar o rosto com aquele sorriso que tinha desaparecido há instantes
Não houve palavras, olharam-se os dois em silêncio. Música calma tocou. Instintivamente seguraram as suas mãos e dançaram, Gabriel sentia uma atração enorme por aquele perfume suave de baunilha, por aquelas mãos frias de dedos finos, quase que jurava que havia um sorriso por detrás da máscara… A música tornava-se mais lenta e a atração aumentava… A mão trémula de Gabriel segurava agora firmemente a cintura dela… Nuno e Pedro observavam os dois, confusos.
- O Gabriel está a dar-lhe forte – Disse o Pedro
- Até parece que gosta da tipa – Acrescentou
Nuno limitava-se a olhar, por momentos acreditou que Gabriel se tinha apaixonado, mas não tardou a dar um pequena risada e convencer-se que isso não seria possível
- Ele é o melhor irmão, engatar miúdas é com ele, ele é um ótimo ator – Comentou Nuno
Enquanto isso, por debaixo daquela máscara de zombie estavam um olhar carinhoso, como se acreditasse em contos de fadas. Por debaixo das suas máscaras, ambos sorriam, ambos sentiam-se um só, sentiam que tinham vivido em vão até aquela noite… Foi assim que se apaixonaram…
- Queres ir lá fora um pouco? – Perguntou Gabriel, mas ao contrário das outras vezes que havia perguntado isto, Gabriel queria apenas estar com ela e conversar, sentia-se estranho, como se deixasse de ter controlo sobre os sentimentos que sempre manipulou
- Gostava imenso - Respondeu, deslizando a mão do ombro de Gabriel e agarrando a sua mão, puxando-a
Do lado de fora do ginásio da escola onde decorria o baile ouvia-a a música eletrónica que tinha voltado a tocar no recinto.
- Faz frio cá fora – Disse a zombie numa voz arrepiada
- Pensava que os mortos vivos não tinham frio – Brincou Gabriel, tentando proteger-se com o seu sorriso irónico, desesperadamente tentando ganhar controlo da situação
Sem acrescentar uma palavra, Gabriel pôs o seu casaco pelas costas da zombie.
- Obrigado – Disse, olhando-o nos olhos, atravessando a sua máscara como uma lança ardente, num olhar ternurento, inocente, indefeso
No coração dos dois ardia a curiosidade de saberem a identidade um do outro, mas nenhum deles queria fazer a pergunta, sentiam-se tão bem mascarados, como se protegendo as suas identidades por detrás duma cortina de fumo.
- Como é que te vou reencontrar? – Perguntou a zombie
- Eu sou desta escola – Respondeu Gabriel, desarmado, incapaz de usar o seu charme pois faltava-lhe o controlo do que sentia
- Eu também sou – Respondeu a zombie
Caminhavam os dois perto da piscina escolar, ao andarem, a mão de Gabriel roçou no pulso da zombie, e em uníssono, os seus dedos entrelaçaram-se, preenchendo os espaços que pareciam existir para a mão um do outro. Gabriel sabia que as tipas adoravam fazer coisas lamechas, passear de mão dada e todo o tipo de coisas pirosas, mas nunca antes tinha gostado de o fazer como nesta noite. Apesar de ser culpado, quebrar corações, destruir vidas, levá-las a depressões enquanto se ria na cara delas, apesar de juntar na sua coleção pessoal um sem numero de corações de raparigas inocentes que lhe caíram nas garras, Gabriel sentia-se tão inocente como uma criança, tão puro como água, e ao lado dela sentia um calor no peito que nunca antes tinha sentido.
- Bolas – Disse a rapariga
- Que foi? – Perguntou Gabriel
- Tenho que estar em casa dentro de 2 minutos ou durmo na rua! – Exclamou, em pânico
- O que é que eu vou fazer?! – Perguntou, em pânico
- Eu levo-te – Disse
- Mas é longe – Explicou a zombie, olhando para o relógio
- Não importa – Respondeu Gabriel
Gabriel sabia que não devia de usar o seu carro com o qual ia para a escola, sabia que tinha despertado sentimentos no seu coração por aquela rapariga e queria a todo o custo esconder a sua identidade, receava ser gozado e motivo de piada, por isso levou-a no seu carro mais humilde, o carro do seu pai que estava estacionado em frente à escola, o seu pai era o diretor da escola, mas a zombie não ligava a marcas de automóveis, nem reparou.
- Desculpa pelo incómodo – Disse a zombie
- Espera – Soltou Gabriel, exaltado, nervoso
- O que foi? - Perguntou a zombie
Gabriel assistia com os seus olhos enquanto o seu coração controlava as suas acções. Pegou na mão da zombie e agarrou-a suavemente, acariciou o seu pescoço e levantou a sua máscara para ver os lábios da sua amada, eram finos e rosados, a sua pele era clara, como porcelana, a luz da Lua entrava pela pára-brisas e parecia iluminar os dois jovens apaixonados. Gabriel aproximou-se dela, mantendo-se hipnotizado pelo seu olhar, estavam cada vez mais próximos, mais próximos, mais próximos… Abraçaram-se um ao outro carinhosamente e colaram os seus lábios num do outro.
- Tenho que ir – Disse a zombie, em pânico
- Como é que te vou reencontrar? – Perguntou Gabriel
A zombie deu-lhe um papel onde dizia “zombieprisioneira731” e por baixo dizia “skype”. O seu coração batia forte, sentindo os lábios dela ainda nos seus, encostou-se para trás no banco.
- Quem és tu Gabriel? – Perguntou a si mesmo, sentindo-se a presa, em vez do predador pela primeira vez

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