sábado, 19 de janeiro de 2013

Pegadas Nas Nuvens - Parte VII



- A ideia foi dele! Espantoso não? – Exclamou Filipa, extasiada
- Não percebi bem – Disse o seu pai

- Basicamente cozinhamos por encomenda, eu faço os bolos e ele faz as refeições – Explicou, enquanto embalava Marta nos seus braços
Filipa tinha ido visitar o seu pai ao lar e com ela trouxe a ideia de Marco, criarem um negócio de catering. A ideia cedo conseguiu a atenção da esperança que Filipa achava perdida, e ela vivia agora mais sorridente com Marco.
- Se eu pudesse ajudar monetariamente, ajudaria… Mas a minha reforma mal dá para pagar a minha estadia aqui no lar – Lamentou
- Pai, se formos bem-sucedidos, vou tirar-te deste lar e vens viver connosco lá para casa! Prometo! – Assegurou Filipa, segurando as mãos gastas do seu pai, este limitou-se a sorrir
E assim começou a grande aventura. O negócio de Filipa e Marco parecia destinado a grandes feitos, mas começaram por fazer pequenas refeições para famílias apressadas sem tempo para cozinhar, e o sucesso foi tanto que no prazo de 3 semanas já tinham a casa cheia de clientes regulares! O empresário sempre ao telemóvel vinha buscar uma sopa e uma sande de frango com cogumelos, a mãe muito ocupada vinha buscar os habituais filetes de pescada para os seus meninos em casa, o estudante de medicina vinha buscar um folhado de carne e um sumo para almoçar entre estudos. Com a casa a encher mais e mais, eles não tiveram mão a medir e tiveram que contratar pessoas para os ajudarem.
O negócio deles andava na boca de toda a gente da cidade do Porto, “A melhor casa de comida para fora de todo o Porto” dizia o rapazinho que vinha buscar o arroz de pato com especiarias, cuja receita era da autoria de Marco. Mas algo ainda maior estava prestes para acontecer.
- Boa tarde, posso falar com a gerente? – Pediu uma mulher, loira, de olhar antipático, mas bem-parecida
- A gerente não está, mas pode falar com o cozinheiro, ele é também meio gerente deste estabelecimento – Disse um dos empregados do atendimento
- Sim, pode ser – Disse a mulher, mantendo um tom de voz como se achasse superior
- Oh chefe, tem aqui uma pessoa que precisa de falar consigo – Disse o empregado a Marco enquanto ele secava as mãos
- Quem é? – Perguntou Marco
- É uma cliente habitual, Raquel Andrade, pareceu-me chateada, espero que não seja para reclamar – Desabafou o empregado, Marco confortou-o pondo a sua mão sobre o ombro dele
- Não a vamos fazer esperar – Disse Marco, abrindo assim a porta que levava ao balcão de atendimento
- Boa tarde menina Raquel, precisava de falar comigo? – Perguntou Marco a Raquel
Raquel era daquele tipo de clientes que nunca dizia nada positivo, parecia estar sempre mal disposta. No entanto, embora fosse uma pessoa desprezível era dona de uns olhos azuis gelo e um cabelo loiro encaracolado, tal e qual uma estrela de cinema. E os seus dotes iam para além da sua beleza, pois Raquel era uma “mãos largas” e encomendava sempre do mais caro e do melhor. Resumindo, pondo de parte a expressão carrancuda e o gelo do olhar, Raquel era de longe a cliente mais preciosa do “Pegadas Nas Nuvens”, o nome oficial do negócio de Marco e Filipa.
- Vou casar-me em breve e gostava que fossem vocês a integrar a lista de cozinheiros no meu casamento – Propôs Raquel, mostrando uma lista a Marco
- Isto é o número de convidados e a ementa para o dia – Raquel esticou a mão, da qual Marco tirou a folha e a observou atentamente
- 500 convidados? 6 pratos diferente de almoço e 6 de jantar com 8 pratos de sobremesa à escolha? Isto é impossível! E mesmo que fosse possível, só um rei podia pagar por um serviço destes – Exclamou Marco, boquiaberto
- Eu pago o triplo do que vocês gastarem – Respondeu Raquel, como que negociando, mantendo o olhar semicerrado
- É um negócio tentador, mas… - Marco contou na calculadora
- O preço final seria de… 90 mil euros aproximadamente! – Marco pôs a mão à cabeça
- Se o problema é o pagamento eu posso adiantar já o necessário para o fazerem, vocês são os melhores e eu não quero o melhor que isso no meu casamento, e a imprensa estará lá, logo seria a vossa rampa de lançamento para a conquista do resto do país – Marco sentia-se tentado mas a probabilidade de falharem era enorme
- Tenho que debater o assunto com a gerente, tenho que saber o que ela acha da sua proposta, é ela quem tem a ultima palavra – Disse Marco, olhando para a folha onde estava circundado “90000 €”
Com isto, Raquel passou-lhe um cartão com o seu contacto e saiu pela mesma porta que entrou.
- Olá, ligaram para mim mas não posso atender, quando ouvirem o pi digam as vossas preces! – Dizia o voice-mail de Filipa
- Amor, precisamos de falar urgentemente, recebemos uma proposta muito boa, anda o mais rápido possível para o restaurante, beijos, amo-te, Marco – Disse Marco, sem tirar os olhos dos 90000 € escritos no papel

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