segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Anti-Cristo - A Profecia - Parte II


Nunca fui fã deste tipo de trabalho, mas como anda o país não tenho outra hipotese senão aceitar e calar.
- Eram dois cafés e a conta por favor – Disse o casal moreno, num sotaque rebuscado, de óculos de sol, ele ruivo de olhos azuis, um bocado volumoso de largura, ela loira, olhos pesados de verde água e dedos amarelos do tabaco que segurava na mão ossuda.
Acho que acaba por ser um pensamento que passa pela cabeça de toda a gente, fazer coisas grandes, eternizarmo-nos perante a sociedade, ou apenas divertimo-nos, para disfarç ar a sensação de vulgaridade que muitas vezes sentimos quando “vamos com a corrente”, especialmente quando existe um demónio dentro de nós que nos atormenta quando não fazemos o certo, mas digam lá, quem não tem os seus demónios não é?
Hmm, que mais segredos meus posso contar… Isto é suposto ser seguro não é? Eu acho que ainda ninguem inventou uma forma de ler pensamentos… Bem, nasci cego do olho direito, sou uma pessoa com uma aura muito negativa (é o que a Inês, a minha amiga hippie, me está sempre a dizer), acho-me ligeiramente mais inteligente que a média, mas socialmente posso dizer que nunca me saí bem, ouvir é o meu forte, mas falar, bem, deixo isso para outras pessoas. Este é o mais estranho, eu nasci morto, tive uma paragem cardiaca, mas após alguns minutos fui reanimado e ressuscitei, se bem que a parte de ser um rapaz morto continua, não leves a mal, mas eu nunca me senti realmente vivo, culpa duma vida rotineira e pais que rivalizariam com Hitler, tirando que eu sou cristão e tenho cabelo preto e olhos azuis e eles não me recambiaram para nenhum campo de concentração, se bem que seriam capazes de me por fora de casa por razões minimas… Aliás já passei uma noite à porta de casa, cheguei tarde de uma saída e tive que ficar à porta. O meu melhor amigo, o Pedro, ainda ficou comigo até meio da noite mas depois teve que ser levado para casa por uma orelha pelo pai… Desde que a mãe dele morreu que as coisas andam mal para o lado dele…
- Guilherme, olhe os cafés – Disse a mulher do outro lado do balcão, “acordei” e fui levar o café e a conta ao casal
- Se tivesse sido mais rápido teria-lhe dado gorjeta – Disse o homem, olhando-me como se fosse uma criatura superior, que por acaso até é verdade, e a máxima de “o cliente tem sempre razão” vem mesmo comprovar isso

A minha vida não é propriamente feliz, mas o que interessa é que tenho bons amigos e sempre me distraio às vezes. Mas quando estou sozinho, é como se caísse na escuridão…

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