No olhar dela, a paisagem do rio Douro, suave e serena.
Seria a sua nova casa, com vista para o paraíso. Permanecia no topo do
corrimão, equilibrada pelo medo, mas pronta a abraçar o seu destino.
. Recém
licenciada em Reabilitação Social, não conseguia arranjar emprego, tinha
dividas para pagar e duas crianças que criara sozinha para alimentar, em
tribunal com um ex-marido por a pensão de alimentos estar em atraso.
Um salto e tudo estaria resolvido, não haveria mais gritos,
mais “nãos” nem lágrimas de desespero. Pensando nisso Filipa conseguiu a paz
que à anos desejava. Apenas mais uma respiração funda e iria por o pé no outro
lado, entraria com o pé direito sobre o céu.
Impulsiva, não lhe tinha ocorrido que deixaria as crianças
para morrerem à fome e ninguém mais poderia pagar o lar ao seu pai idoso, mas
ainda assim Filipa estava ali, sentindo-se corajosa por querer devolver o
presente que lhe foi dado, a sua vida, por a ter levado até um beco sem saída.
- Espere! Não salte! – Disse um jovem, de cabelos loiros
escuros, de olhos verdes, empunhando um olhar preocupado
- Porque não haveria de saltar? É a paz do outro lado! –
Afirmou Filipa achando dona da razão
- Mas depois nunca voltará a sentir a brisa no rosto, nem o quente
dos lençóis nas noites de inverno, nem o sabor do seu prato preferido, nunca
mais ouvirá o som do mar nem o som de um sorriso – Discursou Marco, Filipa
ouviu atentamente e aos poucos perdeu a coragem, sem dizer uma única palavra
desceu do corrimão
- Eu não quero perder nada disso – Confessou Filipa,
reconhecendo o seu impulsivismo
- Quer vir tomar um café comigo? Podíamos conversar e assim
– Propôs Marco, ainda inseguro sobre Filipa
- Adoraria – Respondeu Filipa
Sem comentários:
Enviar um comentário